domingo, 8 de fevereiro de 2009

Estudar bumba meu boi?

Quando eu cursava ensino fundamental (na minha época era primário e ginásio), os professores já nutriam o hábito de ensinar folclore.
Piorou.
Não gosto de folclore. Não gostava quando era criança e continuo a não gostar. Bumba meu boi não merece mais do que cinco minutos do meu tempo ou da minha criança em rápida pesquisa pela internet; infelizmente ela tem que fazer um trabalho sobre o assunto e vai roubar tempo de coisas mais preciosas para dedicar ao Bumba meu boi.
Nada tenho contra que alguém participe de qualquer manifestação de cultura popular; a participação pode ao menos ser divertida e servir como atividade física, ao contrário do estudo, que considero chato e quase inútil.
Digo quase inútil porque serve de mau exemplo. São os antropologismos, a valorização forçada de qualquer manifestação cultural popular e sua equiparação falsa com a cultura erudita.
As crianças são levadas a acreditar que estudar letra do Chico Buarque ou do Caetano Veloso na aula de literatura é tão importante como ler Camões ou Machado.
Não é, não é e não é. É lixo.
Eu já não tive que ler nada de Camões quando estava na escola (já era considerado difícil, já se partia da idéia de que todos nós seriamos incapazes de ler aquilo), mas ainda li O Alienista (só ler, sem qualquer discussão, texto, redação, nada; quem não leu sobreviveu perfeitamente com o resumo).
Na onda do "tudo tem o mesmo valor", chegará o dia em que em que as crianças vão ler Caetano, algum samba-enredo ou rap do Eminem...
A escola da minha criança é considerada uma referência de qualidade e, efetivamente, não é ruim na comparação com outras. Mas eu não tenho dúvidas de que tenho que ensiná-la em casa. A solução é gastar com o Bumba meu boi o mínimo tempo possível e aproveitar para pedir a que responda perguntas assim: a) vc acha que sempre foi importante estudar Bumba meu boi? b) vc conhece algum escritor importante brasileiro que tenha escrito sobre realidades regionais? c) vc acho que á possível falar de um assunto regional de uma forma universal? d) como algo regional do Brasil poderia ter um sentido universal? e) Bumba meu boi tem a mesma importância na sua formação cultural individual que o dragão chinês ou a dança da chuva: nenhuma. Finja que tem um primo escocês e escreva-se uma carta de 200 palavras - em inglês - sobre o Bumba meu boi.
Acabei de encontrar um meio de aproveitar melhor o assunto e melhorar o writing da criança.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O Mestre Ignorante

O nome do blog é uma homenagem ao livro “O Mestre Ignorante”, de Jacques Rancière. O autor é doutor em Filosofia e professor universitário na Universidade de Paris. O livro aborda a educação universal e as curiosíssimas experiências do educador francês Joseph Jacotot.
Eu li há anos atrás. Não trabalho na área da educação, mas sim na área jurídica. Meu marido estava cursando mestrado em direito e o livro fora indicado, entre outros, por um dos professores de filosofia do direito. Eu tive muito mais tempo do que ele para usufruir das novidades, já que não tinha que assistir aulas, me deslocar ou entregar trabalhos. Li quase todos. Ambos aproveitamos o curso; ele se aprimorou e conquistou o grau de mestre, enquanto eu pude me dar ao luxo de ler de forma mais livre e descompromissada vários dos livros e testar, sem mestre explicador, vários conceitos novos até então desconhecidos.
Minha experiência com a obra de Rancière não é de mestre, mas sim de aprendiz.
As faculdades de direito, assim como todas as outras da área de humanas (me desculpem, mas é a mais pura realidade) são aquele tipo de lugar em que a gente logo aprende a responder o que os professores querem ouvir e logo repetimos como papagaios uma série de conceitos mais engolidos do que assimilados. Com a postura certa, uma pitada de arrogância, uma citaçãozinha de Foucault (jamais lido e muito menos situado em seu tempo), dá para enrolar bem os professores mais humanóides, estudar um pouco as matérias mais importantes para o dia a dia profissional e sair da faculdade com um nível de curso técnico ruim. Se o formando tiver a sorte de ter tido boas professoras de português nos ciclos fundamental e médio, conseguirá trabalhar.
Até mesmo para perceber que cursei uma faculdade sofrível, precisei me instruir um pouco; pensava ter feito uma boa escola.
Conquistar novos conhecimentos é uma experiência maravilhosa. Nunca mais consegui parar.